Dicas & Blog/Gestão Financeira

Gestão Financeira Tempo de leitura: 9 min Por Enéas Teles

Agenda Cheia e Caixa Vazio: os 5 Vazamentos Mais Comuns e a Ordem para Fechar Cada Um

O salão trabalha lotado e o dono não consegue tirar R$ 3 mil no fim do mês. Não é falta de cliente. É dinheiro saindo por cinco buracos: preço, comissão, produto, cartão e falta. Veja o diagnóstico com números de um salão real e a ordem que dá mais resultado por esforço.

O diagnóstico

Um salão com três profissionais e a agenda tomada de terça a sábado faturou R$ 30.000 em agosto. A dona atende, gerencia e no fim do mês sobra o suficiente para pagar as contas e quase nada para ela. A primeira reação de todo dono nessa situação é buscar mais cliente. É a reação errada, porque a agenda já está cheia. O problema não está na entrada. Está nas saídas, e uma DRE simples mostra onde:

LinhaValor% da receita
Receita (480 atendimentos, ticket R$ 62,50)R$ 30.000100%
Comissão das profissionais (45% sobre o bruto)R$ 13.50045%
Produtos consumidos nos serviçosR$ 4.50015%
Taxas de cartão (70% da receita a 2,5%)R$ 5251,8%
Simples Nacional (Anexo III, 6%)R$ 1.8006%
Custos fixos (aluguel, contas, sistema, contador, limpeza)R$ 6.00020%
Pró-labore da donaR$ 3.00010%
ResultadoR$ 6752,3%

A agenda está 100% ocupada e sobram 2,3%. Qualquer mês fraco vira prejuízo, e a dona está trabalhando de graça além do pró-labore de R$ 3 mil. Veja os cinco vazamentos, do mais óbvio ao mais escondido, com quanto cada um custa e quanto dá para recuperar.

Vazamento 1: comissão sobre o bruto

As profissionais recebem 45% sobre tudo o que o cliente paga, inclusive sobre a parte que vai para o produto e para a taxa do cartão. Elas ganham comissão sobre o shampoo e sobre a maquininha. O artigo sobre comissão mostra a alternativa: o mesmo percentual sobre a receita líquida de produto e cartão, ou um percentual menor sobre o bruto.

Comissão de 45% sobre o líquido de produto e cartão

  • ReceitaR$ 30.000,00
  • Menos produtos– R$ 4.500,00
  • Menos taxas de cartão– R$ 525,00
  • Base da comissãoR$ 24.975,00
  • Comissão (45%)R$ 11.239,00

Recuperado por mêsR$ 2.261,00

É o maior vazamento e o mais difícil de fechar, porque mexe no ganho da equipe. Faz-se em conversa individual, com a conta na mesa, e de preferência junto com o vazamento 3, que dá às profissionais uma forma de ganhar de volta parte do que perdem.

Vazamento 2: preço que ficou para trás

O ticket médio de R$ 62,50 não sobe há dois anos, enquanto produto, aluguel e energia subiram. Cada serviço tem um valor mínimo da hora que paga o fixo e o lucro, e neste salão ele está abaixo do necessário. Um reajuste de 8% em toda a tabela, com a agenda cheia, perde poucos clientes, porque quem não tem horário não vai embora por R$ 5.

Reajuste de 8% com perda de 3% dos atendimentos

  • Novo ticket médioR$ 67,50
  • Atendimentos (480 menos 3%)466
  • Nova receitaR$ 31.455,00
  • Receita adicionalR$ 1.455,00
  • Menos comissão, Simples e cartão sobre o adicional (cerca de 53%)– R$ 770,00

Recuperado por mêsR$ 685,00

Com a comissão já ajustada sobre o líquido, a parte que fica com o salão do reajuste é maior. A ordem importa: primeiro a comissão, depois o preço. E os 14 horários que sobraram por mês são espaço para o vazamento 5.

Vazamento 3: produto sem medida

R$ 4.500 de produto em R$ 30 mil de receita são 15%. Em salões com controle por dose, esse número fica entre 9% e 11%. A diferença é tintura sobrando na tigela, hidratação a olho, condicionador de revenda usado no lavatório. A ficha técnica por serviço, com dose e custo, e a balança no lavatório, cortam esse desperdício em poucas semanas.

Produto de 15% para 11% da receita

  • Consumo atualR$ 4.500,00
  • Consumo com ficha técnica (11% de R$ 30.000)R$ 3.300,00

Recuperado por mêsR$ 1.200,00

Aqui entra o acordo com a equipe: parte do que se economiza em produto pode virar bônus por meta de consumo, e as profissionais recuperam uma fatia da comissão perdida no vazamento 1. Todo mundo ganha, menos o desperdício.

Vazamento 4: cartão caro e antecipação

Os R$ 525 de taxa parecem pequenos, mas escondem duas coisas: a antecipação automática que muitos salões deixam ligada, a 1,5% a 2,5% ao mês, e a ausência de incentivo ao Pix. O artigo sobre maquininhas mostra a conta completa. Desligar a antecipação, que só é necessária quando não há reserva, e levar um quarto dos pagamentos para o Pix, recupera algo entre R$ 250 e R$ 400 por mês. Vamos considerar R$ 300.

Vazamento 5: a falta que ninguém cobra

Agenda cheia no papel não é agenda cheia na cadeira. Se 8% dos horários marcados não aparecem, são 38 atendimentos por mês que a profissional esperou e não fez, com o fixo correndo. A confirmação no dia anterior e a política de sinal para serviços longos cortam a falta pela metade. Dezenove atendimentos recuperados a R$ 67,50 são R$ 1.282 de receita, e cerca de R$ 600 que ficam com o salão depois de comissão e impostos.

O resultado somado

VazamentoRecuperado por mêsEsforçoOrdem
1. Comissão sobre o líquidoR$ 2.261Alto: conversa com a equipe1º, junto com o 3
3. Produto com ficha técnicaR$ 1.200Médio: fichas e balança1º, junto com o 1
2. Reajuste de 8%R$ 685Baixo: tabela nova e aviso
5. Falta com confirmação e sinalR$ 600Baixo: rotina diária
4. Cartão e PixR$ 300Baixo: uma ligação e um cartaz
TotalR$ 5.046

O resultado do salão passa de R$ 675 para cerca de R$ 5.700 por mês, com a mesma agenda, os mesmos clientes e a mesma equipe. De 2,3% para 18% da receita. Nenhum dos cinco passos exige vender mais. Exigem conta, conversa e rotina, nesta ordem, ao longo de dois ou três meses.

Por onde começar, na prática

Semana 1: monte a DRE do último mês e encontre os seus cinco números. Semana 2: fichas técnicas dos dez serviços mais vendidos e balança no lavatório. Semana 3: conversa individual com cada profissional sobre a nova base de comissão e o bônus de consumo, valendo a partir do mês seguinte. Semana 4: tabela nova de preços e aviso aos clientes. Mês 2: confirmação diária e sinal para serviços acima de duas horas. Mês 3: renegociação da maquininha e cartaz do Pix. No fechamento do mês 3, refaça a DRE e compare.

Agenda cheia é o melhor problema que um negócio pode ter. Ela prova que o serviço é bom e que o cliente existe. Se o caixa não acompanha, o dinheiro está saindo por algum destes cinco lugares, e a boa notícia é que todos os cinco estão sob controle do dono, sem depender de um cliente a mais.

Na prática

Os cinco números na tela, todo dia

No Worldwide ERP para salões, o painel mostra comissão por profissional, consumo de produto por serviço, taxa de cartão por forma de pagamento e faltas por dia. A DRE do mês sai pronta para comparar com a do mês anterior e ver qual vazamento fechou e qual ainda pinga.

Ver o Worldwide para salões →

Quem escreveu

Enéas Teles

Desenvolvedor de sistemas e criador do Invista Pouco e do Worldwide ERP. Escreve sobre gestão financeira e rotina de pequenos negócios a partir do que vê no dia a dia de salões, clínicas, escritórios e obras que usam o sistema.

Os exemplos usam números reais de operação, mas cada negócio é diferente. Para decisões tributárias ou trabalhistas, confirme com o seu contador. Como produzimos o conteúdo →

Ficou com dúvida ou quer contar como faz no seu negócio?