Ficha Técnica de Prato: o Custo Real de Cada Item do Cardápio
O hambúrguer mais vendido da casa pode ser o que dá menos lucro. Sem ficha técnica, ninguém sabe. Veja como montar a ficha de um lanche em 20 minutos, calcular o CMV real com perdas e chegar ao preço que sustenta o negócio.
O cardápio que ninguém precificou
A maioria dos pequenos restaurantes, lanchonetes e confeitarias define preço olhando o concorrente e o "mais ou menos o que dá". O resultado é um cardápio em que alguns itens carregam o negócio e outros dão prejuízo em cada venda, sem que o dono saiba quais são quais. Quando o fornecedor sobe a carne em 15%, o preço não muda porque ninguém sabe quanto de carne tem em cada prato.
A ficha técnica resolve isso. É a lista de tudo que entra em um item, com a quantidade exata e o custo de cada ingrediente. Dela sai o CMV, o custo da mercadoria vendida, que é o número que decide o preço, a margem e o que fica ou sai do cardápio.
Montando a ficha de um hambúrguer
Vamos usar o clássico da casa: pão brioche, 150 g de carne, queijo prato, alface, tomate, molho da casa e embalagem para viagem. O custo de cada ingrediente vem da última nota do fornecedor, convertido para a unidade que o prato usa.
| Ingrediente | Compra | Quantidade no prato | Custo no prato |
|---|---|---|---|
| Pão brioche | R$ 1,20 a unidade | 1 unidade | R$ 1,20 |
| Carne moída especial | R$ 36,00 o kg | 150 g | R$ 5,40 |
| Queijo prato | R$ 50,00 o kg | 30 g | R$ 1,50 |
| Alface e tomate | R$ 12,00 o kg (média) | 40 g | R$ 0,50 |
| Molho da casa | R$ 20,00 o litro | 20 ml | R$ 0,40 |
| Embalagem e guardanapo | R$ 0,80 o conjunto | 1 | R$ 0,80 |
Custo dos ingredientes: R$ 9,80. Gás, energia e mão de obra da cozinha não entram na ficha; são despesas fixas do negócio.
A perda que ninguém conta
A carne perde peso ao ser limpa e ao grelhar. O tomate tem ponta e miolo que vão fora. O pão amassa, o molho sobra e é descartado no fim do dia. Uma ficha sem fator de perda subestima o custo real em 5% a 15%, dependendo do item. Para um lanche simples, 5% é um número conservador; para prato com proteína limpa na casa, como peixe ou frango desossado, pode chegar a 30%.
Custo real e preço do hambúrguer
- Custo dos ingredientesR$ 9,80
- (+) Fator de perda, 5%+ R$ 0,49
- Custo real (CMV do prato)R$ 10,29
- CMV alvo do negócio32%
- Preço mínimo: R$ 10,29 ÷ 0,32R$ 32,16
Preço sugerido no cardápioR$ 32,00
O CMV alvo de 32% não é arbitrário. É o percentual que, na DRE do negócio, deixa margem para pagar impostos, taxas de cartão e aplicativo, as despesas fixas e ainda sobrar lucro. Para restaurante e lanchonete, a faixa saudável fica entre 28% e 35%. Confeitaria e cafeteria conseguem 25% a 30%. Acima de 40%, o negócio quase sempre está no vermelho sem saber.
CMV alvo não é margem
Dividir o custo por 0,32 dá um preço em que o ingrediente é 32% e os outros 68% cobrem tudo o mais. Isso não significa 68% de lucro. Do preço de R$ 32, saem ainda 12% de imposto e cartão (R$ 3,84), o rateio das despesas fixas e, se vendido por aplicativo, mais 20% a 27% de comissão. É por isso que vender pelo aplicativo ao mesmo preço do balcão transforma o prato mais vendido em prejuízo.
O cardápio inteiro em uma tabela
Com a ficha de cada item, monte a tabela que muda o negócio: preço, CMV em reais e em percentual, e quantidade vendida por mês. Ela mostra a "engenharia de cardápio": o que vende muito e ganha muito fica em destaque; o que vende pouco e ganha pouco sai; o que vende muito e ganha pouco precisa de reajuste ou de nova ficha.
| Item | Preço | CMV | CMV % | Vendas/mês | Margem total |
|---|---|---|---|---|---|
| Hambúrguer clássico | R$ 32,00 | R$ 10,29 | 32% | 600 | R$ 13.026 |
| Hambúrguer duplo | R$ 42,00 | R$ 16,20 | 39% | 250 | R$ 6.450 |
| Batata frita | R$ 15,00 | R$ 2,80 | 19% | 500 | R$ 6.100 |
| Refrigerante lata | R$ 7,00 | R$ 3,20 | 46% | 700 | R$ 2.660 |
| Milk-shake | R$ 22,00 | R$ 5,50 | 25% | 180 | R$ 2.970 |
Margem total = (preço − CMV) × vendas. O refrigerante tem o pior CMV do cardápio e o hambúrguer duplo pede reajuste ou uma ficha com 120 g por carne.
O que a tabela manda fazer
- Hambúrguer duplo com 39% de CMV: reajustar para R$ 48 ou reduzir a carne de 2 × 150 g para 2 × 120 g. As duas levam o CMV para perto de 33%.
- Refrigerante com 46%: não dá para subir muito, o cliente compara com o mercado. A saída é o combo: lanche + batata + bebida a R$ 49, em que a batata de 19% compensa a lata de 46%.
- Batata e milk-shake: os itens mais rentáveis. Precisam estar na sugestão do atendente e no topo do cardápio do aplicativo.
- Reajuste por ingrediente, não por inflação. Quando a carne sobe 15%, só os itens com carne mudam. A ficha diz exatamente quanto.
Mantendo a ficha viva
- Faça a ficha de todos os itens uma vez. É um sábado de trabalho para um cardápio de 30 itens, com balança e as últimas notas.
- Atualize o preço dos ingredientes a cada compra, ou pelo menos uma vez por mês. Uma planilha com a lista de insumos e o preço atual recalcula todas as fichas de uma vez.
- Pese o prato pronto de vez em quando. Se a cozinha está colocando 180 g de carne no lanche de 150 g, a ficha está certa e o custo está errado. É a diferença entre ficha e realidade que come a margem sem aparecer em lugar nenhum.
- Revise o CMV alvo a cada semestre com a DRE. Se as despesas fixas subiram, o CMV alvo precisa cair, ou o preço subir.
A ficha técnica é o que transforma o cardápio de lista de pratos em lista de decisões. Cada item passa a ter um custo conhecido, um preço justificado e um lugar merecido. E o dono deixa de descobrir o aumento da carne no fim do mês, quando já vendeu 600 lanches com o preço antigo.
Na prática
Ficha técnica que dá baixa no estoque
No Worldwide ERP cada item do cardápio tem a ficha técnica cadastrada. A venda no PDV ou na comanda dá baixa nos insumos, o custo do prato acompanha o preço de compra atualizado e o relatório mostra o CMV real do mês, por item.
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Enéas Teles
Desenvolvedor de sistemas e criador do Invista Pouco e do Worldwide ERP. Escreve sobre gestão financeira e rotina de pequenos negócios a partir do que vê no dia a dia de salões, clínicas, escritórios e obras que usam o sistema.
Os exemplos usam números reais de operação, mas cada negócio é diferente. Para decisões tributárias ou trabalhistas, confirme com o seu contador. Como produzimos o conteúdo →