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Gestão Financeira Tempo de leitura: 9 min Por Enéas Teles

DRE Simples para Pequeno Negócio: Monte a Sua em Uma Folha

O extrato diz quanto sobrou na conta. Só a DRE diz se o negócio deu lucro e onde ele foi parar. Veja o modelo de sete linhas, o exemplo de uma loja com R$ 38 mil de faturamento e os três erros que fazem a conta mentir.

A pergunta que o extrato não responde

Sobrou R$ 3 mil na conta no fim do mês. Isso é lucro? Pode ser. Pode ser também o dinheiro do fornecedor que só vence dia 10, a parcela do cartão do cliente que entrou antecipada ou o imposto que ainda não foi pago. O extrato mostra o caixa. A Demonstração do Resultado do Exercício, a DRE, mostra o resultado: quanto o negócio gerou de fato no mês, independentemente de quando o dinheiro entrou ou saiu.

Contador faz DRE para empresa grande com quarenta linhas. A sua precisa de sete. O objetivo não é atender a Receita, é responder três perguntas todo mês: quanto sobra de cada venda depois dos custos variáveis, quanto custa manter a porta aberta e quanto sobra no fim.

O modelo de sete linhas

LinhaO que entraOnde pegar o número
1. Receita brutaTudo o que foi vendido no mês, à vista ou a prazoRelatório de vendas do sistema ou do PDV
2. (–) DeduçõesImposto sobre a venda (DAS), taxas de cartão, devoluções e cancelamentosPGDAS, extrato da maquininha
= Receita líquidaO que realmente é seu depois de venderCálculo
3. (–) Custos variáveisCusto do que foi vendido (mercadoria ou insumo), comissões, embalagem, freteFicha de estoque, folha de comissão
= Margem de contribuiçãoO que cada venda deixa para pagar as despesas fixasCálculo
4. (–) Despesas fixasAluguel, salários e encargos, pró-labore, energia, sistema, contador, marketingContas a pagar do mês
= Resultado operacionalO que o negócio gerou operandoCálculo
5. (–) FinanceiroJuros de empréstimo, cheque especial, antecipação de recebíveisExtrato bancário
= Resultado líquidoO lucro ou prejuízo do mêsCálculo

Regime de competência: a venda entra no mês em que foi feita e a despesa no mês a que se refere, não no dia em que o dinheiro se move.

Exemplo: loja de roupas com R$ 38 mil de faturamento

A loja tem uma vendedora registrada, o dono trabalha no balcão e 60% das vendas passam pela maquininha, com taxa média de 3%. Está no Simples Nacional, Anexo I, com alíquota efetiva de 4,5%. A mercadoria vendida no mês custou, em média, 50% do preço de venda. A vendedora ganha 3% de comissão sobre tudo que a loja vende.

DRE do mês

  • Receita brutaR$ 38.000,00
  • (–) Simples Nacional, 4,5%– R$ 1.710,00
  • (–) Taxa de cartão: 3% sobre R$ 22.800– R$ 684,00
  • = Receita líquidaR$ 35.606,00
  • (–) Custo da mercadoria vendida, 50%– R$ 19.000,00
  • (–) Comissão, 3%– R$ 1.140,00
  • = Margem de contribuição (40,7%)R$ 15.466,00
  • (–) Despesas fixas– R$ 12.000,00
  • = Resultado operacionalR$ 3.466,00
  • (–) Juros do capital de giro– R$ 300,00

Resultado líquido (8,3% da receita)R$ 3.166,00

As despesas fixas de R$ 12.000 são: aluguel R$ 3.500, salário e encargos da vendedora R$ 2.600, pró-labore do dono R$ 4.000, energia e internet R$ 450, sistema de gestão R$ 150, contador R$ 400, marketing R$ 500 e outros R$ 400. Repare que o pró-labore está lá dentro. Se o dono não se pagar, a DRE mostra um lucro que não existe: o negócio só fecha no azul porque alguém trabalha de graça.

Como ler o que a DRE está dizendo

Três números dessa folha valem mais que todos os outros juntos.

  • Margem de contribuição de 40,7%. De cada R$ 100 vendidos, R$ 40,70 sobram para pagar as despesas fixas. É esse número que define quanto a loja precisa vender para não ter prejuízo: R$ 12.000 de fixo dividido por 0,407 dá R$ 29.500. Abaixo disso, prejuízo. O ponto de equilíbrio é exatamente essa conta.
  • Despesas fixas de 31,6% da receita. Quanto maior essa fatia, mais frágil o negócio. Uma queda de 20% nas vendas em janeiro derruba a receita para R$ 30.400, mas o fixo continua em R$ 12.000, e o resultado vai a quase zero.
  • Resultado líquido de 8,3%. Um desconto geral de 10% na loja inteira, sem aumento de volume, tiraria R$ 3.800 da receita e viraria o resultado para negativo. É por isso que desconto se decide na DRE, não no balcão.

O teste da folha única

Se a sua DRE não cabe em uma folha, ela tem detalhe demais. Agrupe: energia, água, internet e telefone viram uma linha. Salário, encargos, vale-transporte e alimentação viram outra. Você quer olhar dez números e enxergar o negócio, não conferir cinquenta e não ver nada.

Os três erros que fazem a DRE mentir

  1. Lançar a compra de estoque como custo. Se a loja comprou R$ 25 mil de mercadoria em setembro para vender na primavera, esse valor não é custo de setembro. O custo do mês é o da mercadoria que saiu, os R$ 19 mil do exemplo. Compra é caixa; custo é o que foi vendido. Confundir os dois transforma todo mês de reposição em prejuízo falso e todo mês sem compra em lucro falso.
  2. Deixar o pró-labore de fora. É o erro mais comum e o mais grave. Sem o salário do dono, a DRE mostra que o negócio dá lucro enquanto o dono paga as contas de casa com o cartão da loja. O pró-labore é despesa fixa e tem que aparecer.
  3. Misturar investimento com despesa. A máquina de R$ 6 mil comprada em um mês não é despesa daquele mês. Ela vai durar cinco anos. Se quiser refletir isso, lance R$ 100 por mês como depreciação; se não quiser complicar, deixe fora da DRE e controle no fluxo de caixa.

A rotina que faz a DRE funcionar

Uma DRE feita uma vez é curiosidade. Feita todo mês, no mesmo formato, é a ferramenta de gestão mais poderosa que existe para o pequeno negócio, porque permite comparar. Reserve a primeira semana do mês para fechar a do mês anterior. Puxe a receita do sistema de vendas, o imposto do PGDAS, as taxas do relatório da maquininha, o custo da mercadoria do controle de estoque e as despesas do contas a pagar.

Depois de três meses, coloque as três DREs lado a lado. Você vai enxergar a margem caindo antes de sentir no bolso, o fixo crescendo devagar e o resultado que não acompanha a receita. Essas são as decisões que valem dinheiro, e nenhuma delas aparece no extrato do banco.

Na prática

A DRE que nasce da operação

No Worldwide ERP a venda registrada no PDV, a nota do fornecedor lançada no estoque e a conta a pagar com vencimento alimentam o resultado do mês sem redigitação. Receita, custo da mercadoria vendida, despesas por categoria e o resultado ficam no painel, mês a mês.

Ver o financeiro do Worldwide →

Quem escreveu

Enéas Teles

Desenvolvedor de sistemas e criador do Invista Pouco e do Worldwide ERP. Escreve sobre gestão financeira e rotina de pequenos negócios a partir do que vê no dia a dia de salões, clínicas, escritórios e obras que usam o sistema.

Os exemplos usam números reais de operação, mas cada negócio é diferente. Para decisões tributárias ou trabalhistas, confirme com o seu contador. Como produzimos o conteúdo →

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