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Precificação Tempo de leitura: 8 min Por Enéas Teles

Quanto Cobrar por Hora: a Conta do Prestador de Serviço

Dividir o salário que você quer por 220 horas é o jeito mais rápido de trabalhar muito e ganhar pouco. Você não vende 220 horas. Veja a conta certa, com o exemplo de um técnico autônomo que descobriu que a hora dele vale R$ 100, não R$ 30.

O erro de dividir por 220

Quase todo prestador de serviço começa assim: quero ganhar R$ 5 mil por mês, o mês tem 220 horas, então minha hora vale R$ 22,70. Aí arredonda para R$ 30 e sai cobrando. Dois anos depois, trabalha doze horas por dia e não consegue pagar o INSS.

A conta está errada em duas pontas. Primeiro, R$ 5 mil não é o custo do seu negócio: falta o combustível, a ferramenta, o celular, o imposto, as férias que você não vai tirar e os meses fracos. Segundo, ninguém vende 220 horas. O tempo de orçar, deslocar, cobrar, comprar material, responder WhatsApp e esperar cliente que não apareceu ninguém paga, e ele consome metade do mês.

Passo 1: o custo mensal de você existir como negócio

Liste tudo que precisa ser pago no mês para o serviço acontecer, mesmo que nenhum cliente ligue. Inclua o que você quer tirar para viver, porque isso também é custo. Vamos usar como exemplo um técnico autônomo, eletricista ou instalador, que atende com carro próprio e é MEI.

Custo mensal do técnico

  • Pró-labore desejado (o que leva para casa)R$ 5.000,00
  • Provisão de férias e 13º: 2/12 do pró-laboreR$ 833,00
  • DAS-MEIR$ 86,05
  • Combustível, manutenção e seguro do carro (parte do trabalho)R$ 700,00
  • Ferramentas: reposição e depreciaçãoR$ 200,00
  • Celular, internet e aplicativosR$ 120,00
  • EPI, uniforme e seguro de acidentesR$ 100,00
  • Cartão de visita, anúncios, siteR$ 150,00

Custo mensal totalR$ 7.189,05

A provisão de férias e 13º incomoda muita gente. A conta é simples: um empregado recebe 13 salários mais um terço de férias por 12 meses de trabalho. Se você não provisionar, vai trabalhar em dezembro para pagar novembro e nunca vai parar. Dois doze avos do pró-labore, guardados todo mês, resolvem.

Passo 2: quantas horas você realmente vende

Aqui está o número que muda tudo. Comece pelas horas disponíveis: 22 dias úteis vezes 8 horas dá 176 horas. Agora tire o que não é faturável.

Tempo não faturávelHoras por mêsSobra
Horas disponíveis (22 dias × 8h)176h
Deslocamento entre clientes– 30h146h
Orçamentos, visitas e mensagens– 20h126h
Compras de material, banco, burocracia– 10h116h
Ociosidade: dias sem serviço, cancelamentos– 16h100h

Cem horas vendáveis é uma taxa de ocupação de 57%. Para profissional autônomo que atende na rua, é um número realista, não pessimista.

Quem trabalha em local fixo, como uma manicure, um barbeiro ou um consultório, tem menos deslocamento e mais ociosidade: os buracos na agenda substituem o trânsito. A taxa de ocupação costuma ficar entre 55% e 70%. Quem já tem agenda cheia há meses pode usar 75%. Ninguém usa 100%.

Passo 3: o custo da sua hora

Custo por hora vendável

  • Custo mensal totalR$ 7.189,05
  • ÷ horas vendáveis100h

Custo por horaR$ 71,89

Esse é o número que empata. Cobrando R$ 71,89 por hora e vendendo cem horas, o técnico paga todas as contas, tira R$ 5 mil e não sobra um centavo para crescer, para o mês que o carro quebra ou para o cliente que não paga.

Passo 4: margem e imposto por cima

Sobre o custo entra a margem de lucro do negócio, que é diferente do pró-labore. É o dinheiro que fica na empresa para trocar ferramenta, comprar a escada nova, aguentar o mês de janeiro. Vinte por cento é um piso razoável. Se você é MEI, o imposto já entrou como valor fixo no custo. Se fosse Simples Nacional, entraria como percentual sobre a venda, junto com a margem.

Preço da hora com margem de 20%

  • Custo por horaR$ 71,89
  • ÷ (1 – 0,20)0,80
  • Preço da hora calculadoR$ 89,86

Preço da hora arredondadoR$ 90,00

Se o mesmo técnico estivesse no Simples Nacional, Anexo III, com 6% de imposto sobre a venda, a divisão seria por (1 – 0,20 – 0,06), ou 0,74, e a hora sairia a R$ 97,15. Por isso a hora do prestador cresce quando ele sai do MEI, e o preço precisa acompanhar.

A hora que ninguém vê

De R$ 30 para R$ 90 parece um salto absurdo, e é exatamente o salto que separa quem fecha o mês de quem não fecha. O cliente não compra a sua hora, compra o problema resolvido. Um serviço de duas horas a R$ 180 é barato para quem estava sem energia na cozinha. A mesma visita a R$ 60 é o que mantém o profissional quebrado com a agenda lotada.

Da hora ao preço do serviço

  • Material é à parte. A hora paga o seu tempo. Fio, tomada, tinta e peça entram no orçamento com o custo mais uma margem de 20% a 30% pelo trabalho de comprar, transportar e garantir.
  • Defina uma visita mínima. Serviço de 20 minutos consome uma hora de deslocamento. Cobre no mínimo uma hora, ou uma taxa de visita que cubra o trajeto.
  • Para serviços repetidos, feche por pacote. Se a instalação de um chuveiro leva em média 1h30, o preço é 1,5 × R$ 90 mais material, sempre. Cliente gosta de preço fechado, e você ganha nos dias em que é mais rápido.
  • Reveja a cada seis meses. Combustível sobe, DAS sobe, você fica mais rápido e mais procurado. Se a agenda está cheia três semanas à frente, a hora está barata.

Como saber se a conta fechou

No fim do mês, some as horas que faturou e o que entrou. Se faturou 100 horas a R$ 90, entraram R$ 9.000 mais material. Pagou os R$ 7.189 do custo, guardou os R$ 833 das férias, e sobraram R$ 1.800 na empresa. Se faturou 70 horas, entraram R$ 6.300 e faltou dinheiro: o problema não é o preço, é a ocupação, e a solução é vender mais horas, não baixar a hora. Saber distinguir os dois é o que a conta te dá. O artigo sobre precificação mostra a mesma lógica aplicada a produto e serviço com equipe.

Na prática

Orçamento, ordem de serviço e horas na mesma tela

No Worldwide ERP o orçamento vira ordem de serviço com um clique, o material sai do estoque, e o relatório mostra quantas horas foram faturadas no mês e a que preço médio. É a conta deste artigo, feita sozinha, todo mês.

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Quem escreveu

Enéas Teles

Desenvolvedor de sistemas e criador do Invista Pouco e do Worldwide ERP. Escreve sobre gestão financeira e rotina de pequenos negócios a partir do que vê no dia a dia de salões, clínicas, escritórios e obras que usam o sistema.

Os exemplos usam números reais de operação, mas cada negócio é diferente. Para decisões tributárias ou trabalhistas, confirme com o seu contador. Como produzimos o conteúdo →

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