Promoção que Dá Lucro: Como Calcular Desconto Sem Quebrar o Negócio
Dez por cento de desconto parece pouco. Para uma loja com 40% de margem, exige vender 33% a mais só para ganhar o mesmo dinheiro. Veja a fórmula, a tabela que mostra quanto cada desconto custa e cinco promoções que funcionam sem dar desconto no preço.
O desconto sai da margem, não do preço
Quando um produto de R$ 100 recebe 10% de desconto, o cliente vê R$ 10 a menos em R$ 100. O dono deveria ver outra coisa: R$ 10 a menos em R$ 40, que é o que sobrava daquela venda depois de pagar o produto, o imposto, a comissão e o cartão. O desconto de 10% no preço é um corte de 25% no que a venda deixava. É por isso que promoção mal feita aumenta o movimento e diminui o dinheiro no fim do mês.
A conta que resolve isso usa a margem de contribuição, o mesmo número do ponto de equilíbrio: o que sobra de cada venda depois dos custos variáveis. Se você ainda não tem esse número, ele vem da DRE simples.
A fórmula: quanto a mais preciso vender
Para um desconto não reduzir o lucro, o volume vendido precisa crescer o suficiente para compensar a margem perdida. A fórmula é curta:
Aumento de volume necessário
Volume necessário = margem ÷ (margem − desconto)
Com margem de 40% e desconto de 10%: 40 ÷ (40 − 10) = 1,33. É preciso vender 33% a mais em quantidade só para empatar. Qualquer coisa abaixo disso é prejuízo em relação a não fazer a promoção.
Loja com margem de 40%: 100 peças a R$ 100 sem promoção
- Receita sem promoçãoR$ 10.000,00
- Margem de contribuição (40%)R$ 4.000,00
- Com 10% de desconto: preçoR$ 90,00
- Custos variáveis por peça (não mudam)R$ 60,00
- Margem por peça na promoçãoR$ 30,00
- Peças para gerar os mesmos R$ 4.000134
Vendas a mais necessárias+ 34%
Vendendo 120 peças, o que já seria uma promoção bem-sucedida em movimento, a margem cai para R$ 3.600. A loja trabalhou 20% a mais para ganhar R$ 400 a menos. E o exemplo é generoso: o custo variável raramente fica parado. Se a comissão da vendedora é sobre o preço vendido, ela cai um pouco; se o cartão cobra sobre o valor da venda, cai também. Mas o custo do produto, que é a maior parte, não muda um centavo.
| Margem de contribuição | Desconto de 5% | Desconto de 10% | Desconto de 20% | Desconto de 30% |
|---|---|---|---|---|
| 30% | + 20% | + 50% | + 200% | Impossível |
| 40% | + 14% | + 33% | + 100% | + 300% |
| 50% | + 11% | + 25% | + 67% | + 150% |
| 60% | + 9% | + 20% | + 50% | + 100% |
| 70% | + 8% | + 17% | + 40% | + 75% |
Aumento de volume necessário para manter o mesmo lucro. Com margem de 30%, um desconto de 30% zera a margem: cada venda passa a ser feita de graça.
A tabela explica por que restaurante e serviço, com margens de 55% a 70%, conseguem fazer promoção de 20% e ganhar, enquanto comércio de revenda, com margem de 30% a 40%, quase nunca consegue. Não é questão de coragem. É a margem.
Quando o desconto faz sentido
- Para girar estoque parado. Peça que não vende há 90 dias não tem margem para proteger, tem custo de ocupar espaço e capital. Aqui o desconto pode ser grande, e o cálculo é outro: recuperar o custo e o espaço. O artigo sobre estoque mostra a conta.
- Para preencher horário vazio. No salão, na clínica ou no restaurante, a cadeira vazia de terça às 14h custa a mesma coisa cheia ou vazia. Desconto restrito a esse horário tem custo variável quase zero e margem alta.
- Para trazer cliente novo que volta. Se o primeiro atendimento com desconto gera um cliente que volta cinco vezes a preço cheio, a conta é sobre as seis visitas, não sobre a primeira.
- Para antecipar caixa. Desconto no Pix ou no pagamento à vista custa menos do que a taxa da maquininha e do que o empréstimo que ele evita.
Quando o desconto não faz sentido
Para vender mais do que já vende bem. Para acompanhar o concorrente. Para "movimentar" sem saber quanto precisa movimentar. Para agradar cliente que compraria de qualquer jeito. Em todos esses casos a promoção transfere margem para quem já ia comprar, e o volume extra, se vier, raramente chega aos 33%.
Cinco promoções que preservam a margem
- Bônus em produto em vez de desconto em dinheiro. "Compre a coloração, leve a hidratação" custa ao salão o custo do produto e do tempo da hidratação, uns R$ 15, e vale R$ 60 para a cliente. Um desconto de R$ 60 custaria R$ 60.
- Combo com item de margem alta. Lanche + bebida + batata por R$ 39 em vez de R$ 45. O desconto de R$ 6 se dilui em três itens, e a bebida e a batata têm 70% de margem. O combo sobe o ticket e mantém a margem média.
- Desconto condicionado a volume. "Na terceira unidade, 30% de desconto": o cliente que compraria uma leva três, e o desconto é sobre um terço da venda, não sobre ela toda.
- Desconto na segunda visita. O cupom para voltar em 30 dias não custa nada hoje e só custa se a volta acontecer, que é exatamente o que você quer.
- Preço fechado em pacote. Cinco sessões pelo preço de quatro e meia: o cliente paga adiantado, o caixa recebe hoje, a agenda fica preenchida por cinco semanas e o desconto real é de 10% sobre uma venda de cinco vezes o ticket.
Como medir se a promoção deu certo
Antes de começar, anote três números: a quantidade média vendida por semana do item ou serviço, a margem por unidade e o volume necessário calculado pela fórmula. Durante a promoção, registre a quantidade e a margem real. No fim, compare a margem total do período com a margem que teria sem promoção. Movimento, curtida e fila na porta não são resultado. Margem é.
E existe um efeito colateral que só aparece depois: o cliente que aprende a esperar a promoção. Se toda última semana do mês tem 20% de desconto, a loja treina o cliente a não comprar nas outras três. A promoção de verdade é rara, tem motivo claro e acaba na data. A que vira rotina é só um preço menor com nome bonito.
Na prática
Promoção com margem à vista
No Worldwide ERP cada produto e serviço tem o custo cadastrado, e o relatório de vendas mostra a margem de contribuição do período, por item. Dá para comparar a semana da promoção com a anterior e saber, em reais, se valeu a pena.
Ver relatórios de venda do Worldwide →Quem escreveu
Enéas Teles
Desenvolvedor de sistemas e criador do Invista Pouco e do Worldwide ERP. Escreve sobre gestão financeira e rotina de pequenos negócios a partir do que vê no dia a dia de salões, clínicas, escritórios e obras que usam o sistema.
Os exemplos usam números reais de operação, mas cada negócio é diferente. Para decisões tributárias ou trabalhistas, confirme com o seu contador. Como produzimos o conteúdo →