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Operação Tempo de leitura: 10 min Por Enéas Teles

Contratar o Primeiro Funcionário: CLT, MEI ou Parceria? A Conta de Cada Opção

Um salário de R$ 1.800 custa R$ 2.800 por mês para a empresa, e a maioria descobre isso na primeira rescisão. Veja o custo real da CLT no Simples, o que a contratação como MEI economiza e o que ela arrisca, e quando a parceria é o caminho certo.

A pergunta certa não é "quanto paga", é "quanto custa"

O primeiro funcionário é a decisão mais cara que o pequeno negócio toma nos primeiros anos, e costuma ser tomada olhando só o salário. O salário é a metade da história. A outra metade são os encargos, as provisões que ninguém guarda e o custo de errar a modalidade de contratação. Este artigo faz a conta das três opções que aparecem na prática: registrar pela CLT, contratar um MEI ou fechar uma parceria.

Opção 1: CLT no Simples Nacional

A boa notícia para quem está no Simples, nos Anexos I, II, III e V, é que a empresa não paga os 20% de INSS patronal nem as contribuições do Sistema S: isso já está dentro do DAS. Por isso o encargo no Simples é bem menor do que os 70% ou 80% que aparecem em conversa de bar. Ainda assim, ele existe. Vamos usar um salário de R$ 1.800, com vale-transporte e alimentação.

Custo mensal de um funcionário CLT com salário de R$ 1.800 (empresa do Simples)

  • SalárioR$ 1.800,00
  • FGTS, 8% sobre o salárioR$ 144,00
  • Provisão de 13º salário (1/12)R$ 150,00
  • Provisão de férias com 1/3 (1/12 × 1,333)R$ 200,00
  • FGTS sobre 13º e fériasR$ 28,00
  • Vale-transporte (parte da empresa, após 6% do funcionário)R$ 180,00
  • Vale-alimentação ou refeiçãoR$ 300,00

Custo total por mêsR$ 2.802,00

Cinquenta e seis por cento a mais que o salário, sem contar exame admissional, uniforme, a multa de 40% do FGTS numa demissão sem justa causa e o custo do contador para a folha, que costuma subir R$ 80 a R$ 150 por funcionário. Um negócio que fatura R$ 30 mil com margem de contribuição de 40% precisa gerar R$ 7.000 a mais de vendas por mês só para essa pessoa se pagar. O artigo sobre ponto de equilíbrio mostra como fazer essa conta para o seu caso.

Se você é MEI

O MEI pode ter um funcionário, com salário mínimo ou piso da categoria. O encargo é ainda menor: 3% de INSS patronal mais 8% de FGTS, além das mesmas provisões de férias e 13º. Com salário mínimo de R$ 1.621 em 2026, o custo mensal fica em torno de R$ 2.150 sem benefícios. O segundo funcionário desenquadra o MEI, então a decisão de crescer a equipe é também a decisão de virar microempresa.

Opção 2: contratar como MEI

A proposta que todo mundo recebe: "abre um MEI que eu te pago R$ 2.000 e você não tem desconto". No papel, a empresa paga R$ 2.000 sem encargo, o trabalhador recebe R$ 2.000 e paga R$ 86 de DAS. Os dois parecem ganhar. O problema é que a lei não olha para o papel, olha para a realidade.

Se a pessoa cumpre horário, recebe ordens, não pode mandar outra pessoa no lugar e recebe todo mês, ela tem os quatro elementos do vínculo de emprego: subordinação, habitualidade, pessoalidade e onerosidade. O CNPJ não muda isso. Se ela procurar a Justiça do Trabalho, e dois anos depois de sair ela ainda pode, a empresa paga tudo o que a CLT pagaria, mais multa, mais juros, de uma vez.

Passivo de uma contratação como MEI por 24 meses a R$ 2.000

  • FGTS não depositado, 8% × 24 mesesR$ 3.840,00
  • Multa de 40% sobre o FGTSR$ 1.536,00
  • 13º salário de dois anosR$ 4.000,00
  • Férias com 1/3, dois períodosR$ 5.333,00
  • Aviso prévio de 33 diasR$ 2.200,00
  • INSS e multas administrativas (estimativa)R$ 3.000,00

Passivo aproximado, sem honorários e jurosR$ 19.909,00

Quase R$ 20 mil, em uma parcela, no pior momento. A economia mensal da modalidade foi de cerca de R$ 800; em dois anos, R$ 19 mil. O ganho inteiro vira passivo, com juros. Contratar MEI só é seguro quando a relação é de verdade autônoma: o profissional tem outros clientes, define o próprio horário, pode se fazer substituir e é pago por serviço, não por mês. Um fotógrafo para eventos, um contador, um técnico chamado por demanda. Uma atendente de balcão, não.

Opção 3: parceria

No salão de beleza e na barbearia existe uma terceira via, com lei própria. A Lei do Salão Parceiro (Lei 13.352/2016) permite que a profissional trabalhe como parceira: ela é MEI ou ME, tem contrato de parceria registrado no sindicato, e o salão retém uma parte do que ela fatura para cobrar aluguel de cadeira, produto e administração. A cabeleireira não é empregada, e a lei diz isso com todas as letras, desde que o contrato exista e seja cumprido.

Fora do salão, a parceria existe como comissão pura ou representação comercial, mas sem a proteção legal específica. Em ambos os casos, o custo para o negócio é proporcional: só paga quando entra receita. É o modelo certo para quem ainda não tem faturamento previsível o bastante para bancar um salário fixo. O artigo sobre comissão mostra como definir o percentual sem prejuízo.

As três opções lado a lado

CLTMEI contratadoParceria / comissão
Custo mensal (R$ 1.800 a R$ 2.000)R$ 2.800R$ 2.000Percentual da receita gerada
Risco trabalhistaBaixo, se a folha está em diaAlto se houver subordinaçãoBaixo com contrato registrado; alto sem
Controle sobre horário e métodoTotalNenhum, por definiçãoCompartilhado
Em mês fracoCusto igualCusto igualCusto cai junto
Quando faz sentidoFunção fixa, horário fixo, receita estávelServiço eventual, profissional com outros clientesSalão, barbearia, vendas, receita variável

Antes de assinar qualquer coisa

  1. Confirme que o negócio banca. O custo do funcionário entra no fixo. Refaça o ponto de equilíbrio com ele dentro e veja se a receita atual cobre com folga de pelo menos 15%.
  2. Descreva a função por escrito, com horário e tarefas. Isso evita a contratação errada e é o começo do contrato.
  3. Contrato de experiência de 45 mais 45 dias na CLT. É o período em que a rescisão é mais simples.
  4. Folha com contador desde o primeiro mês. eSocial, guias de FGTS e INSS e a rescisão não são lugar para aprender errando.
  5. Guarde as provisões. R$ 378 por mês, no exemplo da CLT, vão para uma conta separada. Quando chegar o 13º, o dinheiro já existe. É a mesma lógica da reserva de emergência.

A primeira contratação bem feita é a que muda o negócio de "eu" para "empresa". Feita pelo custo real, com a modalidade certa e as provisões guardadas, ela paga a si mesma. Feita pelo salário anunciado e pela modalidade mais barata no papel, ela é a origem da primeira crise séria.

Na prática

Equipe cadastrada, comissão calculada, custo no lugar certo

No Worldwide ERP cada profissional tem cadastro com modalidade, percentual de comissão ou salário fixo. A comissão é calculada por venda registrada, o salário entra como despesa fixa recorrente, e o relatório mostra quanto cada pessoa gerou e custou no mês.

Ver o módulo de equipe do Worldwide →

Quem escreveu

Enéas Teles

Desenvolvedor de sistemas e criador do Invista Pouco e do Worldwide ERP. Escreve sobre gestão financeira e rotina de pequenos negócios a partir do que vê no dia a dia de salões, clínicas, escritórios e obras que usam o sistema.

Os exemplos usam números reais de operação, mas cada negócio é diferente. Para decisões tributárias ou trabalhistas, confirme com o seu contador. Como produzimos o conteúdo →

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