Contratar o Primeiro Funcionário: CLT, MEI ou Parceria? A Conta de Cada Opção
Um salário de R$ 1.800 custa R$ 2.800 por mês para a empresa, e a maioria descobre isso na primeira rescisão. Veja o custo real da CLT no Simples, o que a contratação como MEI economiza e o que ela arrisca, e quando a parceria é o caminho certo.
A pergunta certa não é "quanto paga", é "quanto custa"
O primeiro funcionário é a decisão mais cara que o pequeno negócio toma nos primeiros anos, e costuma ser tomada olhando só o salário. O salário é a metade da história. A outra metade são os encargos, as provisões que ninguém guarda e o custo de errar a modalidade de contratação. Este artigo faz a conta das três opções que aparecem na prática: registrar pela CLT, contratar um MEI ou fechar uma parceria.
Opção 1: CLT no Simples Nacional
A boa notícia para quem está no Simples, nos Anexos I, II, III e V, é que a empresa não paga os 20% de INSS patronal nem as contribuições do Sistema S: isso já está dentro do DAS. Por isso o encargo no Simples é bem menor do que os 70% ou 80% que aparecem em conversa de bar. Ainda assim, ele existe. Vamos usar um salário de R$ 1.800, com vale-transporte e alimentação.
Custo mensal de um funcionário CLT com salário de R$ 1.800 (empresa do Simples)
- SalárioR$ 1.800,00
- FGTS, 8% sobre o salárioR$ 144,00
- Provisão de 13º salário (1/12)R$ 150,00
- Provisão de férias com 1/3 (1/12 × 1,333)R$ 200,00
- FGTS sobre 13º e fériasR$ 28,00
- Vale-transporte (parte da empresa, após 6% do funcionário)R$ 180,00
- Vale-alimentação ou refeiçãoR$ 300,00
Custo total por mêsR$ 2.802,00
Cinquenta e seis por cento a mais que o salário, sem contar exame admissional, uniforme, a multa de 40% do FGTS numa demissão sem justa causa e o custo do contador para a folha, que costuma subir R$ 80 a R$ 150 por funcionário. Um negócio que fatura R$ 30 mil com margem de contribuição de 40% precisa gerar R$ 7.000 a mais de vendas por mês só para essa pessoa se pagar. O artigo sobre ponto de equilíbrio mostra como fazer essa conta para o seu caso.
Se você é MEI
O MEI pode ter um funcionário, com salário mínimo ou piso da categoria. O encargo é ainda menor: 3% de INSS patronal mais 8% de FGTS, além das mesmas provisões de férias e 13º. Com salário mínimo de R$ 1.621 em 2026, o custo mensal fica em torno de R$ 2.150 sem benefícios. O segundo funcionário desenquadra o MEI, então a decisão de crescer a equipe é também a decisão de virar microempresa.
Opção 2: contratar como MEI
A proposta que todo mundo recebe: "abre um MEI que eu te pago R$ 2.000 e você não tem desconto". No papel, a empresa paga R$ 2.000 sem encargo, o trabalhador recebe R$ 2.000 e paga R$ 86 de DAS. Os dois parecem ganhar. O problema é que a lei não olha para o papel, olha para a realidade.
Se a pessoa cumpre horário, recebe ordens, não pode mandar outra pessoa no lugar e recebe todo mês, ela tem os quatro elementos do vínculo de emprego: subordinação, habitualidade, pessoalidade e onerosidade. O CNPJ não muda isso. Se ela procurar a Justiça do Trabalho, e dois anos depois de sair ela ainda pode, a empresa paga tudo o que a CLT pagaria, mais multa, mais juros, de uma vez.
Passivo de uma contratação como MEI por 24 meses a R$ 2.000
- FGTS não depositado, 8% × 24 mesesR$ 3.840,00
- Multa de 40% sobre o FGTSR$ 1.536,00
- 13º salário de dois anosR$ 4.000,00
- Férias com 1/3, dois períodosR$ 5.333,00
- Aviso prévio de 33 diasR$ 2.200,00
- INSS e multas administrativas (estimativa)R$ 3.000,00
Passivo aproximado, sem honorários e jurosR$ 19.909,00
Quase R$ 20 mil, em uma parcela, no pior momento. A economia mensal da modalidade foi de cerca de R$ 800; em dois anos, R$ 19 mil. O ganho inteiro vira passivo, com juros. Contratar MEI só é seguro quando a relação é de verdade autônoma: o profissional tem outros clientes, define o próprio horário, pode se fazer substituir e é pago por serviço, não por mês. Um fotógrafo para eventos, um contador, um técnico chamado por demanda. Uma atendente de balcão, não.
Opção 3: parceria
No salão de beleza e na barbearia existe uma terceira via, com lei própria. A Lei do Salão Parceiro (Lei 13.352/2016) permite que a profissional trabalhe como parceira: ela é MEI ou ME, tem contrato de parceria registrado no sindicato, e o salão retém uma parte do que ela fatura para cobrar aluguel de cadeira, produto e administração. A cabeleireira não é empregada, e a lei diz isso com todas as letras, desde que o contrato exista e seja cumprido.
Fora do salão, a parceria existe como comissão pura ou representação comercial, mas sem a proteção legal específica. Em ambos os casos, o custo para o negócio é proporcional: só paga quando entra receita. É o modelo certo para quem ainda não tem faturamento previsível o bastante para bancar um salário fixo. O artigo sobre comissão mostra como definir o percentual sem prejuízo.
As três opções lado a lado
| CLT | MEI contratado | Parceria / comissão | |
|---|---|---|---|
| Custo mensal (R$ 1.800 a R$ 2.000) | R$ 2.800 | R$ 2.000 | Percentual da receita gerada |
| Risco trabalhista | Baixo, se a folha está em dia | Alto se houver subordinação | Baixo com contrato registrado; alto sem |
| Controle sobre horário e método | Total | Nenhum, por definição | Compartilhado |
| Em mês fraco | Custo igual | Custo igual | Custo cai junto |
| Quando faz sentido | Função fixa, horário fixo, receita estável | Serviço eventual, profissional com outros clientes | Salão, barbearia, vendas, receita variável |
Antes de assinar qualquer coisa
- Confirme que o negócio banca. O custo do funcionário entra no fixo. Refaça o ponto de equilíbrio com ele dentro e veja se a receita atual cobre com folga de pelo menos 15%.
- Descreva a função por escrito, com horário e tarefas. Isso evita a contratação errada e é o começo do contrato.
- Contrato de experiência de 45 mais 45 dias na CLT. É o período em que a rescisão é mais simples.
- Folha com contador desde o primeiro mês. eSocial, guias de FGTS e INSS e a rescisão não são lugar para aprender errando.
- Guarde as provisões. R$ 378 por mês, no exemplo da CLT, vão para uma conta separada. Quando chegar o 13º, o dinheiro já existe. É a mesma lógica da reserva de emergência.
A primeira contratação bem feita é a que muda o negócio de "eu" para "empresa". Feita pelo custo real, com a modalidade certa e as provisões guardadas, ela paga a si mesma. Feita pelo salário anunciado e pela modalidade mais barata no papel, ela é a origem da primeira crise séria.
Na prática
Equipe cadastrada, comissão calculada, custo no lugar certo
No Worldwide ERP cada profissional tem cadastro com modalidade, percentual de comissão ou salário fixo. A comissão é calculada por venda registrada, o salário entra como despesa fixa recorrente, e o relatório mostra quanto cada pessoa gerou e custou no mês.
Ver o módulo de equipe do Worldwide →Quem escreveu
Enéas Teles
Desenvolvedor de sistemas e criador do Invista Pouco e do Worldwide ERP. Escreve sobre gestão financeira e rotina de pequenos negócios a partir do que vê no dia a dia de salões, clínicas, escritórios e obras que usam o sistema.
Os exemplos usam números reais de operação, mas cada negócio é diferente. Para decisões tributárias ou trabalhistas, confirme com o seu contador. Como produzimos o conteúdo →